❝
João! João! Morreu! Ai meu Deus, morreu pobre de João Grilo! Tão amarelo, tão safado e morrer assim! Que é que eu faço no mundo sem João? João! João! Não tem mais jeito, João Grilo morreu. Acabou-se o Grilo mais inteligente do mundo. Cumpriu sua sentença e encontrou-se com o único mal irremediável, aquilo que é a marca de nosso estranho destino sobre a terra, aquele fato sem explicação que iguala tudo o que é vivo num só rebanho de condenados, porque tudo o que é vivo morre.
❝
Ela se jogou da janela do quinto andar… Nada é fácil de entender.
❝
O padre José Pedro dizia que os pobres um dia iriam para o reino dos céus, onde Deus seria igual para todos. Mas a razão jovem de Pedro Bala não achava justiça naquilo. No reino do céu seriam iguais. Mas já tinham sido desiguais na terra, a balança pendia sempre para um lado.
❝
Eu já não sei conversar, já não sei do que acontece lá fora, já não sei o que está na moda, nem o nome da minha vizinha nova. Mas já decorei quantos azulejos existem na parede do meu banheiro, sei quantas manchinhas existem no meu carpete, e quantos passos eu preciso dar até a minha geladeira, nas raras horas em que eu sinto fome. Hoje dividi tudo em dois mundos: o mundo lá fora e o mundo aqui dentro. Hoje eu só sei de mim e da minha solidão.
❝
A criança que você pôs no mundo pesa dez libras. É feita com oito libras de água e um punhado de carbono, cálcio, azoto, sulfato, fósforo, potássio e ferro. Você deu à luz oito libras de água e duas libras de cinzas. Assim cada gota de seu filho era o vapor da nuvem, o cristal da neve, da bruma, do orvalho, da água da nascente e da lama de um esgoto. Milhões de combinações possíveis de cada átomo de carbono ou de azoto. Você apenas reuniu o que já existia.
Olha a Terra suspensa no infinito. O Sol, seu próximo companheiro, está a cinquenta milhões de milhas. Nosso pequeno planeta não é mais que três mil milhas de fogo recoberto por uma película que tem apenas dez milhas. Sobre esta fina película, um punhado de continentes jogados entre os oceanos. Sobre estes continentes, no meio das árvores, arbustos, pássaros e animais — o ruído dos homens. Entre estes milhões de homens, está você, que deu á luz um homem a mais. O que é ele? Um galhinho, uma poeira — um nada.
É tão frágil que uma bactéria pode matá-lo; uma bactéria que aumentada mil vezes é apenas um ponto no campo visual.
[…]
Neste nada há qualquer coisa que sente, deseja, observa; que sofre e que odeia; que é feliz e que ama; que tem confiança e que duvida; que acolhe e rejeita.
Este grão de poeira encerra em seu pensamento as estrelas e os oceanos, as montanhas e os precipícios. E o que é a essência da alma senão todo o universo, faltando apenas as suas dimensões?
É esta a contradição inerente ao ser humano: nascido de um quase nada, Deus está nele.
Olha a Terra suspensa no infinito. O Sol, seu próximo companheiro, está a cinquenta milhões de milhas. Nosso pequeno planeta não é mais que três mil milhas de fogo recoberto por uma película que tem apenas dez milhas. Sobre esta fina película, um punhado de continentes jogados entre os oceanos. Sobre estes continentes, no meio das árvores, arbustos, pássaros e animais — o ruído dos homens. Entre estes milhões de homens, está você, que deu á luz um homem a mais. O que é ele? Um galhinho, uma poeira — um nada.
É tão frágil que uma bactéria pode matá-lo; uma bactéria que aumentada mil vezes é apenas um ponto no campo visual.
[…]
Neste nada há qualquer coisa que sente, deseja, observa; que sofre e que odeia; que é feliz e que ama; que tem confiança e que duvida; que acolhe e rejeita.
Este grão de poeira encerra em seu pensamento as estrelas e os oceanos, as montanhas e os precipícios. E o que é a essência da alma senão todo o universo, faltando apenas as suas dimensões?
É esta a contradição inerente ao ser humano: nascido de um quase nada, Deus está nele.
1 / 458
SEGUIR
